Gostei da leitura, flui muito bem. Fiz algumas correções, até de erros de digitação, e assinalei-as com asteriscos. Enquanto lia, eu pensava, tenho uma história boa para contar ao Cachorrão. Mas à medida que o livro avançava, todas essas histórias apareciam. Vou pensar mais um pouco, procurar alguma anedota inédita, mas acho que você as conhece todas, melhor que eu.
Um grande abraço,
Chico Buarque

Histórias com música lá dentro ou será o contrário?
Em 'Histórias de Canções - Chico Buarque', Wagner Homem leva-nos aos bastidores de 133 composições do músico brasileiro.
Em Meu Caro Baião, música feita para o filme Saltimbancos Trapalhões, Chico Buarque põe um grupo de saltimbancos a escrever uma carta para o dono do circo que fugiu com o dinheiro. Para mostrar as dificuldades que eles tinham com a língua e com o teclado, ele comete propositadamente erros de concordância e tira o acento de algumas palavras fazendo com que rimem com outras (faxina com "maquina", "virgula" com "ridícula", por exemplo). Mas quando foi publicado o songbook, a letra apareceu certinha. O revisor, com excesso de zelo, tinha acabado com as liberdades poéticas de Chico Buarque.
O episódio valeu algumas gargalhadas partilhadas pelo músico brasileiro e pelo homem que organizou esse songbook, em 1989, Wagner Homem. Hoje, as gargalhadas repetem-se ao ler Chico Buarque - Histórias de Canções, o livro onde, como o nome indica, Wagner Homem conta histórias relacionadas com as canções de Chico Buarque.
Apesar de ser fã antigo, Wagner só conheceu Chico Buarque quando a editora Companhia das Letras o desafiou a organizar o songbook do cantor, Chico Buarque - Letra e Música. "O Chico é uma pessoa doce, não tem nada de tímido como dizem. Ele é reservado, é diferente." Tornaram-se amigos. Foi ele que propôs ao músico criar um site na Internet e é ele o responsável pela manutenção da página. Como contou à imprensa brasileira: "Ele topou, eu fiz, e de lá pra cá, eu administro esse site. É um trabalho meio incessante, você não pára. Todo dia você descobre uma coisa nova. Embora o Chico não produza mais tanto, descubro muita coisa antiga, que não sabia."
A ideia para fazer o livro surgiu à medida que Wagner Homem reparava que a secção do site mais visitada era aquela onde Chico Buarque contava pequenas histórias sobre a criação das canções, aqueles pequenos nadas que são tudo: "As pessoas gostam muito das histórias. É um garimpo, a gente vai descobrindo as coisas aos poucos", explicou o autor ao Correio da Bahia. E, noutra entrevista, adiantou: "Escrever o livro foi na verdade um acto de organizar informações que fui obtendo ao longo do tempo. Esse acto me tomou cinco meses. Mas a pesquisa foi diluída aí pelos 11 anos administrando o site."
A ideia não era tanto contar a vida de Chico Buarque, mas mais contar a vida destas canções - em que contexto foram criadas, como surgiu a letra, quem é a moça por quem o autor parece apaixonado. Acompanhamos, assim, a insegurança das primeiras composições, quando Chico Buarque era ainda estudante de arquitectura: Tem mais samba, de 1964, revela desde logo um autor de excepção ("Se todo o mundo sambasse/seria tão fácil viver"). Passamos pelos festivais da canção, com a popular A Banda e a incompreendida Sabiá ("Chico não estava presente quando recebeu a maior vaia da sua vida" - o público detestou a canção vitoriosa). Percebemos melhor o exílio de Chico Buarque e a conturbada relação com a censura - ele bem tentou dizer que em Apesar de Você (1970) se dirigia a uma mulher "muito mandona" mas toda a gente percebeu que se estava a referir ao presidente Médici.
A obra com que a Leya se estreou no Brasil é, assumidamente, um livro para fãs. Felizmente para a editora, o cantor tem muitos fãs. O livro intercala as letras das músicas (quase todas da autoria do cantor, que poucas vezes musica poemas de outros) com uma contextualização histórica acompanhada de correspondência trocada com parceiros de luxo, citações de entrevistas de Chico Buarque e de quem o acompanhou. Vale tudo para entrar nos bastidores de 133 canções. Mas Wagner Homem não exclui a hipótese de fazer uma edição revista e aumentada. O autor gostou tanto da experiência que já está a pensar usar este formato de livro baseando-se na obra de Toquinho. Não por acaso é de Toquinho o texto introdutório do livro onde diz: "Músicas têm histórias e é bom saber delas, principalmente das de Chico."
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