Gostei da leitura, flui muito bem. Fiz algumas correções, até de erros de digitação, e assinalei-as com asteriscos. Enquanto lia, eu pensava, tenho uma história boa para contar ao Cachorrão. Mas à medida que o livro avançava, todas essas histórias apareciam. Vou pensar mais um pouco, procurar alguma anedota inédita, mas acho que você as conhece todas, melhor que eu.

Um grande abraço,
Chico Buarque

Na Imprensa

Trocando em miúdos

01/11/2009 - Gazeta - Vitória - ES por Gisele Arantes

Em 1998, quando o site oficial de Chico Buarque surgiu na rede, os elogios ao rico acervo sobre o cantor e compositor carioca foram, senão unânimes – para não cair na máxima de Nelson Rodrigues de que "toda a unanimidade é burra" –, bastante numerosos. Mas em meio àquela avalanche de informação, uma pérola arrepiou os fãs: trechos em áudio do momento exato da criação de "Vai Passar", aquele instante mágico em que nasce uma canção. Uma canção, não. Um clássico.

A curiosidade sobre o processo de composição, de onde surge a primeira brasa de ideia, quem são as Ritas, Januárias, Carolinas, Bárbaras e Beatrizes que inspiraram Chico Buarque – se é que alguma delas existiu em outro lugar que não na imaginação do poeta – é comum a tantos quantos são os admiradores do artista. Entre eles Wagner Homem, que transformou em livro as histórias que sempre colecionou sobre o ídolo. O resultado está em "Histórias de Canções", um dos primeiros lançamentos da editora Leya no Brasil. "É um projeto simples", afirma, modestamente, o autor, que não previa o sucesso da obra, na lista das mais vendidos desde a primeira semana nas lojas.

A tarefa seria hercúlea se não fosse exatamente ele o responsável pela criação do site do cantor (www.chicobuarque.com.br), um verdadeiro centro de referência sobre o artista – para se ter uma noção, seriam necessárias entre 4 e 5 mil páginas para imprimir todo o conteúdo do portal. Restava a missão, nada fácil, registre-se, de organizar, checar e narrar 45 anos de carreira.

Mergulho
Como o autor esclarece, não se trata de um livro biográfico, muito menos analítico. Não importa. Mesmo os fãs mais ardorosos vão se deliciar com descobertas e anedotas saborosas sobre o artista e, na esteira, sobre o Brasil das últimas décadas.

Uma das curiosidades citadas no livro, e uma das maiores lendas a respeito da obra de Chico Buarque, de acordo com o autor, é que os versos "Você não gosta de mim/ Mas sua filha gosta", de "Jorge Maravilha" (1974) eram uma menção a Amália Lucy, que manifestara admiração pelo artista, e a seu pai, ninguém menos que o general Ernesto Geisel. "Era uma canção mais prosaica, apesar de Chico admitir que a moça era muito simpática. O Chico disse várias vezes que, em uma das ocasiões em que foi ‘convidado a depor’, durante a ditadura, algum agente da polícia, um burocrata, pediu seu autógrafo. Mas esse é um dos casos em que a lenda se tornou mais interessante do que a verdade", brinca.

Outra confusão que entrou para a história é de que a música "Bastidores" foi feita para Cauby Peixoto – mito, inclusive, propagado pelo próprio intérprete. Quando Chico permitiu que Cauby gravasse a canção, ela já havia sido registrada pela irmã do compositor, Cristina. Mas, para não faltar com a justiça, foi mesmo Cauby quem tornou o versos "chorei, chorei/ até ficar com dó de mim" imortais.

O tom de "Histórias de Canções" é o de quem conta "causos", tamanha a familiaridade de Wagner com o assunto, que vem desde que ele era "moleque" e colecionava discos de Chico Buarque. Quando, já trabalhando para o site, inventou um recurso de inserir notinhas ao pé de cada canção, que contavam detalhes sobre o contexto da obra, cavou, quase sem querer, uma mina de ouro.

"Pelo número de acessos e e-mails enviados, percebi a necessidade, a curiosidade, a vontade, não sei definir, que existia sobre o tema. Entre essas mensagens, de vez em quando descobria uma pepita, uma nova história", conta Homem, que antes havia participado da organização do primeiro songbook sobre Chico, "Letra e Música", em 1989, assinado pelo jornalista Humberto Werneck.

Assim como fez na web, ao oferecer total liberdade a Wagner Homem, Chico Buarque também não interferiu em nada publicado no livro. "Lembro-me de que perguntei se poderia incluir críticas desfavoráveis no site, e ele disse ‘tem que colocar’", diz Homem, usando uma entonação enfática para reforçar a resposta de Chico. "Na verdade, uma das poucas vezes em que ele falou algo sobre o site comigo foi justamente para incluir uma crítica que ‘sentava o pau’, dizendo que ele havia plagiado um escritor, islandês se não me engano", diverte-se.

Aliás, a maior parte das histórias é bem-humorada, em grande parte pelo humor próprio de Chico. A letra de "Trocando em Miúdos", por exemplo, foi barrada pela censura apenas por citar Pablo Neruda, poeta chileno e comunista ("Devolva o Neruda que você me tomou/ E nunca leu"). "Chico instruiu os advogados para argumentar que não havia problema, porque, embora a moça da história tenha ficado com o livro, ela nunca chegou a ler" (risos).

Aliás, a verve irônica de Chico o colocou em algumas situações engraçadas – outras, estapafúrdias. Quando estava compondo "Ode aos Ratos", Chico ligou para o amigo Paulo Vanzolini, compositor e zoólogo, para enriquecer a descrição dos animais, e o músico teria dito para ele inventar, assim como faz quando escreve sobre mulheres. De pronto, Chico respondeu: "Pô, Vanzolini... pelos ratos eu tenho o maior respeito!" "É lógico que apareceram algumas malucas para dizer que era mau-gosto", conta o escritor, que negocia agora um mergulho na obra de Toquinho.

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